Como os arquitetos modernos dividem a sociedade

Um edifício brutalista (Bank House - Cidade de Leed): projetado sem consideração pelas pessoas que precisam viver nele.

"As cidades em toda a Inglaterra foram prejudicadas por um planejamento inexplicavelmente ruim, mas a perspectiva está melhorando"

     Como parte do meu estilo de vida glamoroso, fiquei recentemente por duas noites no hotel Premier Inn perto do cruzamento das rodovias M57 e do M58 nos arredores de Liverpool. Para chegar ao hotel a partir da estação foi apenas uma curta caminhada, mas com um enorme obstáculo: uma estrada principal de seis pistas. Não havia um cruzamento sinalizado por perto, nem uma passagem subterrânea ou passarela. Isso apesar do fato de a estrada ter dividido uma área suburbana densamente povoada. No final, eu tive que confiar em mim mesmo ao fazer uma travessia após ter esperado uma pausa naquele transito intenso. Essa seria sem dúvida uma travessia muito arriscada para alguém incapacitado ou que estivesse com crianças pequenas.

     O grande problema com o mau planejamento urbano - e para o conhecedor do mau planejamento, a Grã-Bretanha pode fornecer uma vida inteira - é que ele é inevitável. Eu posso evitar poesias pretensiosas e romances mal escritos e filmes aborrecedores. Se eu não gosto das tendências predominantes na pintura, sei quais galerias não devo visitar. Mas o desagrado infligido aos moradores das pequenas e grandes cidades por décadas de planejamento perverso é empurrado em nossos rostos todos os dias.

     Passeando de  trem em Peterborough algumas semanas atrás, e com uma hora sobrando, pensei em passear pela catedral. Esse edifício e seus recintos são maravilhosamente bonitos, e o centro da cidade manteve grande parte do seu encanto medieval. Mas os locais próximos a eles são desafiadoramente feios e mundanos. Primeiro, você deixa a estação, uma espécie de caixa de concreto estranha que substituiu a antiga estação em estilo vitoriano durante o grande Terror arquitetônico dos anos pós-guerra. Em seguida, passe por uma sombria série de blocos de escritório e estacionamentos sob uma via dupla. Você nunca iria imaginar que estaria a poucos metros de um dos melhores edifícios da Europa.

     Mas eu não quero falar apenas de Peterborough. Meu trabalho leva-me a cidades grandes e pequenas de toda a Inglaterra, e percebo que muitas foram prejudicadas por decisões inexplicavelmente ruins tomadas por planejadores urbanos. Uma de suas decisões mais assustadoras foi a preocupação em tornar a vida mais conveniente possível para os motoristas em detrimento do bem estar dos pedestres (por isso, e com muita justiça, muitos lugares agora estão resistindo à tirania dos carros). Outra decisão ruim é o que descreverei generosamente como indiferença - outros podem chamá-la de hostilidade - para com a harmonia, beleza e escala humana. O centro da minha cidade natal, Croydon, está sendo parcialmente recuperado para as pessoas por uma expansão do bonde elétrico e do plantio de árvores. Mas ainda sofre de ter sido projetado por pessoas  por pessoas que não viveram nele a experiência de ser um pedestre. Se houver um simples vento moderado, o "efeito cânion" dos edifícios altos cria rajadas desagradáveis ​​ao nível do solo; ,o mesmo tempo em que a excelente Igreja do Revival Gótico "Igreja de São Miguel e todos os Anjos" foi cercada por todos os lados por edifícios comerciais sujos e descaracterizados.

Igreja de São Miguel e todos os Anjos, cercada por edifícios comerciais


     Eu sei o que o leitor deve estar pensando a meu respeito nesse momento: "Você é apenas um conservador que não gosta da modernidade". Mas as paisagens em que nos movemos importam. Ter filhos tornou-me muito mais consciente de quão completamente aceitamos a dominação do espaço público por latas metálicas de rápido movimento que matam 2.000 pessoas por ano. Há uma interseção bastante movimentada perto da minha casa, onde cinco estradas se encontram. Em apenas duas dessas estradas há cruzamentos para pedestres.

     Mais fundamentalmente, tenho uma preocupação mais profunda sobre as áreas urbanas onde caminhadas e ciclismo são perigosas e desencorajadas, e onde os edifícios são implacavelmente funcionais e dissociados de qualquer tradição significativa: eles minam nossa capacidade de se sentir o mundo como se fosse nossa casa. Esta é uma das grandes necessidades humanas, resistir à alienação e ao descontentamento e criar um lugar onde pertencemos e possamos nos conectar com os outros.

     Claramente, esta não é simplesmente uma questão de ambiente construído; Mas nem esse aspecto pode ser ignorado. Não é fácil crescer em paz e amor com os nossos vizinhos, se apenas os vemos em seus carros e não nas ruas. Algumas das histórias mais tristes que eu já li são os testemunhos daqueles que foram transferidos para blocos habitacionais depois que suas casas foram demolidas para liberação de espaço. Em muitos casos, eles agora estavam vivendo em casas objetivamente melhores, mas igualmente a alteração radical em seu ambiente físico muitas vezes devastara comunidades e quebrara vínculos sociais de longa data.
O insensível bloco residencial.


     Na verdade, é impressionante ao ler sobre alguns dos principais expoentes da arquitetura e planejamento  modernos, como Le Corbusier, para ver como eles desprezavam os sentimentos das pessoas que agora teriam que viver e trabalhar dentro de suas grandes visões ideológicas.

A visão de cidade de Le Corbusier, que prioriza o carro em detrimento do bem-estar humano.


     Esperemos que os sinais que emergem na Grã-Bretanha de um melhor urbanismo - infraestrutura apropriadas para bicicletas, políticas anti-carros mais fortes e um foco maior nos espaços habitáveis ​​- não sejam um despertar falso, mas uma verdadeira mudança para as cidades nas quais possamos ser verdadeiramente humanos.

Autor: Niall Gooch
Tradutor: Jonh Costa Almeida

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